Wednesday, November 25, 2009

Ai, esses espíritos livres...

"Um beijo, um cheiro, um abraço, um abismo, um salto e lá estou eu me jogando novamente pra você."

Dito isso, eu sou deslocado pr’um ponto de vista privilegiado. Sou agora o observador que vê de baixo, com a diferença que não tenho mais incensos nem velas para acender em altar algum. Estou agora em meio à extensões infinitas de cordilheiras e vales, e, trazidos pelo vento, sinto aromas que pulsam por essas galerias naturais e me inflam o tronco e eu árvore, enraizado e tendo meus pés banhados pela água que corre abaixo da terra estremeço de prazer, me saciam todos os apetites o sopro de vida a correr pelas veias invisíveis dessas cordilheiras… e aqui de baixo a natureza é toda fantástica, quase onírica, o verde das copas e de meus cabelos, o marrom de minhas pernas e dessas montanhas, o azul do céu e dos rios e do meu sangue; esse quadro bucólico, eu enuviado devaneio, só pode ter sido pincelado por sirenas, fadas ou quaisquer outros espíritos livres que correm por aí como se parte da estrutura viva de toda a natureza (não posso deixar de imaginar, seriam mendigos fosse o quadro um pouco mais urbano), e que pintores exímios são essas criaturas! os pêlos do meu corpo ainda estão eriçados pelas pinceladas. Ai, esses espíritos livres, como não se apaixonar por eles? Tão espontâneos, quase líricos em seu silêncio, sua poesia não se dá senão pelo rastro de aquarela que se mistura com seu sorriso, riem, riem de tudo, gargalham, não estão presos a nada nem a ninguém, e se eu agora não fosse árvore, fosse eu um observador de passagem, como tantos outros que descobrem essas criaturas, tenho certeza que meu sangue ferveria, que seria difícil refrear os impulsos que me subiriam a espinha, impulsos de aprisionar para si esses espíritos, de trancá-los no porão, de se lambuzar, espalhar as tintas do corpo sem critério nem significado… sim, é fácil compreender o por quê da paixão que se sente por essas criaturas, elas pertencem ao mundo e é só tomando para si plenitude do mundo que elas são felizes; como não se encantar com a leveza e serenidade que carregam no peito, pois o mundo, quando se consegue todo para si, ele não pesa nada, é leve, é uma pluma, te faz flutuar, e nada mais fácil do que desenvolver a ilusão de que apanhando essas criaturas, estaria-se apanhando também um punhado do mundo, mas é uma pena, pois eles anseiam pelo paraíso, mas há muito perderam a inocência… E volto a mim, em minha nova condição de árvore, estou congelado com o rosto voltado para cima, e percebo o salto, o seu salto, deslocando a densa barreira do ar, deslocando esses aromas, reconfigurando seus caminhos e fazendo-os desaguar essa torrente em mim, e atrás vem você como se presa a cauda de um cometa de fragâncias; que confusão de imagens essa que eu criei, uma galeria de quadros e espelhos, já estou há muito perdido nela, mas que seja, que seja, se fui pintado assim e se foi me dada essa única direção a que olhar, vou aproveitar, e olha meus galhos abertos num abraço gigante, esperando sua queda inevitável nas folhas de minha copa, pode cair, e não se preocupe, não vou tomar sua liberdade, não vou te prender entre esses galhos – não esqueça, ambos temos o mundo no peito, e caindo em mim, é na verdade ele que te abraçará.

Tuesday, November 24, 2009

Poema antigo...

...e um tanto bobinho, mas que se vá, que se vá, porque hoje só quero um monte de estrofes empilhadas mesmo.

***

POEMA À DERIVA

Sob o panteão de estrelas, a milhas da costa,
Vaga o barco solitário e seu capitão.
Se diz capitão sabe Deus porque.
Já não possui tripulação,
A comida acabou, a água secou, a noite gelou.

Emaranhado de trevas ele acorda no seio da noite
Embriagado de maresia e frio e mar
À proa ele vai, forçando seus grilhões mais e mais
Esmagado pelos dois abismos colossais.
E com um grande suspiro se deixa levar,
Prostrado na proa, fitando o céu, enclausurado
(Com um sorriso na cara)
Encolhido num caloroso abraço
De trevas e noite e mar e estrelas.

Assim vai indo o capitão do barquinho sem rumo
E tudo que vê é a noite, imóvel, e suas constelações

Da falta de comida e de água ele adormece,
Pensa que é o último sono
E sorve com gosto o resto da noite,
Do sereno, do ar gelado.
De tanto ar embriagado, enfim adormece.

Desperta sonolento e dolorido fitando o céu
E – oh! As estrelas se foram.
A vida se foi. Acabou.
É essa a resposta final. Escuridão, trevas, acima, abaixo. Só.
Eis a morte – vida na escuridão.

Que me resta, pensa o capitão, se achando morto.
Que me falta agora além de comida, água,
Vinho e o calor d’uma mulher?
Até minhas estrelas se foram!
Elas, que tanto me abraçaram!
Nada mais me falta agora, já que toda a falta já falta.
Deito-me, então; e, já que nada me oferece o mundo
Pois com o nada hei de me envenenar!

E deitou, respirou o ar, dormiu
E o vento norte por ele passou
Como passam certos amores
Pelo coração que se enclausurou.

Se ao menos soubesse o capitão…
Se seu sono não fosse o último…
Não houvesse ele tanto de se envenenar…
Levantar-se-ia, e, ao olhar para o lado, veria:
Deixou-se à deriva, e nesse acaso se salvou,
A brisa o levou ao cais.
Mas, profanado pelas luzes da cidade,
Também o céu de estrelas se apagou.

Wednesday, November 18, 2009

O que se esconde nos cumes? (Éden suspenso)

E foi como se tomado de assalto que me percebi alguns degraus acima do nível do mar. Foi só quando percebi que a respiração estava difícil, que ventava frio, que meus ouvidos tinham entupido. Foi a vertigem ao olhar pra baixo e perceber as ondas batendo com violência nas pedras que antes pareciam tão grandes. Foi respirando fundo e segurando o ar com força para não perder o equilíbrio. Um movimento em falso e a vertigem tomaria conta de mim e aí já viu. Se estou tão alto, o equilibrio é estritamente necessário. Todas as forças da natureza e das leis da física estão jogando contra mim. Tentam me sufocar, tentam explodir meus sentidos, tentam me causar frio, tentam me empurrar daqui de cima, e o pior... tão alto eu cheguei, tão próximo do céu, tentam me queimar de sol. Mas eu mesmo tonto, mesmo enuviado, mesmo cercado dos mais altos perigos que o mundo oferece, ah, mesmo assim, eu rio, eu rio na cara desse abismo gigantesco que eu sozinho galguei, e rio na cara da vertigem, e rio na cara do oceano e do vento, e empurro de volta tudo que ele tenta empurrar contra mim. Se venta na minha cara, eu assopro de volta, pois daqui de cima o meu sopro equivale ao sopro de Deus, e meu riso é tão estrondoso quanto um trovão. Já arrisco até algumas brincadeiras - vou ficar apoiado em uma perna só, e ainda dar alguns pulinhos, ha ha ha, porque se você para pra pensar direito, nem estou tão alto assim, ainda há muito pra subir, temos muito chão pela frente. E que seja mais e mais vertiginoso, eu quero saltar os relâmpagos, quero pegar jacarézinho no dilúvio, já sinto que posso apagar o sol com meu cuspe; subamos, pois, a vertigem nos aguarda.

Tuesday, November 3, 2009

Pela criação e destruição de todos os limites

Ou: o Eterno Retorno do corpo



Todos sabem o que é mergulhar,
Afundar, deixar-se afogar,
Amputar os braços, as pernas,
Para não mais poder nadar,
E lá ficar, à deriva, entre as curvas
Do relevo sinuoso
De suas quase etéreas geografias.

Mas quem há de saber da frustração,
Do desespero, do êxtase de excitação
Que, só por explodir, já impõe o limite da explosão;
Quem há de saber que além do prazer
De se ver submerso,
De perder as referências entre os corpos
De misturar um milhão de espelhos,
Que, além dessas cercanias, nada mais há;
É atingir o topo do poço
É bater de cabeça no firmamento;
É dar de cara com Deus;
É vislumbrar o infinito e dele (quase!) se cansar.

Quanta frustração!
Mesmo sabendo que o gozo eterno significa o seu próprio fim,
Como dói não saber como afundar-te mais e mais em mim.

Tuesday, October 27, 2009

"Por educação, perdi minha vida."

Hoje sem querer abri os olhos e me peguei vendo as coisas da perspectiva de um doente terminal. E, como é de costume, ao escovar os dentes, me encontrei no espelho, assistindo o velho decrépito sendo vítima do preço de sua vida na juventude. Assisti a cirrose alastar-se em torrentes pelo seu fígado; vi seus pulmões esfarelarem e serem levados pelo vento de sua árdua respiração; seus dentes feito estalactites despencarem na saliva da boca, como quando se sonha com a morte.

E vi a carne, decompondo-se em feridas e nódulos, descascando e caindo como pétalas de flores antigas, e mesmo invisível, pude assistir todo o desejo, todo o sangue e fogo da sua juventude esvair-se dele, vazando por rachaduras invisíveis, drenando toda e qualquer vitalidade, revelando a cruel verdade de que o corpo transformou-se em carcaça.

E eu, jovem, forte, com saúde, fiquei horrorizado: revi toda a minha vida em retrospecto, todos esses vinte anos, que em verdade parecem bem mais. Percebi como é ridículo querer travestir-se de velho, de ancião, aos vinte anos; que bem pode fazer vestir esses trapos de maturidade, esses sapatos surrados e austeros, que transparecem sabedoria, se tudo que se faz com essa experiência mentirosa é misturar fluiídos de juventude à essa austeridade toda. E assistindo ao doente terminal com minhas roupas adultas, meus vinte anos me pesaram como nunca! Fui encontrando diversas válvulas de controle ao redor do meu corpo, todas devidamente seladas. Não entendo, como isso foi acontecer, como lacrei tanto meu sangue, que tampão gigante de moralidade é esse com que revesti minha carne debaixo de toda essa roupa? De onde vem tanta vergonha? Que educação é essa que me ensinaram… logo eu, eu! Quem foi o filho-da-puta que plantou esse grão que depois de vinte anos regado finalmente germinou numa pomposa vergonha, tão danosa aos campos de plantação do corpo? Quem vai colher do fruto dessa árvore agora? Não, me irrigaram com água ao invés de deixar o plasma das veias fornecer alimento ao solo fértil da carne! Quiseram me moldar uma máquina de bons costumes e boas relações com os outros, nem que pra tanto tivessem de sacrificar a mim mesmo! Usurparam o Deus que vive em cada um e o substituíram por um ridículo ser inatingível. Tanto falaram que a vergonha é consequência do pecado que nem é mais preciso pecar para se ter vergonha!

E chamou o SENHOR Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás?

E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?

E como Adão, fui obrigado a lavrar solitário a terra árida do corpo.

Thursday, October 15, 2009

o presente

Tendo sido o meu ego por tantos anos embebido e diluído em elogios de outrém, acerca de um suposto talendo literário nato que possuiria aquele menino ao mesmo tempo sisudo e bobo, burro e feio, porém com lampejos espasmáticos de inspiração divina, tendo crescido em meio a essas modulações, hoje, com a cara sangrando do choque contra o muro do mundo real, meus pensamentos desaguam em dois canais distintos: foi fermentando precocemente que ergui em mim uma certa superioridade arrogante, pedante, mas que nunca nunca extravazou demais, ao contrário, foi sendo cultivada, regada por dentro, e eu colhia essa petulância em silêncio, sozinho, no colégio, em conversas, colhia essa flor quiçá desgarrada, que ninguém senão eu julgava cheirosa, enquanto nos jardins pestilentos das salas de aula só se cultivava a imbecilidade, e eu me erguia jardineiro solitário e orgulhoso, recebendo de mim mesmo – meus orgãos internos eram minha platéia particular - os aplausos, os louros da glória, sustentados numa certeza inabalável que dizia: ao primeiro passo pra fora desse inferno, o mundo há curvar-se diante de mim. E eis que ao abrirem-se as portas para fora da adolescência, o sol queimou meu rosto, meus olhos, doeram, doeram, não consegui abrí-los durante muito muito tempo, e no escuro segui errante no mundo real, esbarrando aqui e ali com velhos e novos amigos, tropeçando, me agarrando e desvinçilhando de amores antigos, corações errados, seios desmedidos… eventualmente perdendo de vista e encontrando novamente as palavras, essa história de amor épica entre o carrasco e o condenado, sempre enforcando e deixando ser enforcado.

Hoje eu acordo de ressaca de tantos e tantos anos embriagado numa arrogância que, apesar de ter servido até certo ponto de estímulo, era em grande parte infundada, pois as palavras são a melhor arma para enganar os desavisados, você nem sequer precisa ser um grande feitiçeiro, basta ler uma ou dois linhas do manual de magias e as luzezinhas resultantes de teu encanto hão de seduzir e maravilhar quem assiste, por mais que sejam só luzes e o efeito real do encanto de fato nunca aconteça, nada senão um jogo de luzes, o arco-íris não é um grande escorregador e muito menos há ouro em sua base – só luz.

Há de ter sido a ressaca, pois desvirtuei-me ridiculamente do que queria dizer desde o começo: queria dizer que eu recebi um presente, um presente lindíssimo, e, naqueles anos em que eu andava bêbado e arrogante, acreditava que a felicidade oriunda desse presente impediria o escritor de jorrar sua arte, mas não, não!, a tristeza é, sim matéria prima para arte, mas nunca só ela, nunca. Como pude ser tão imbecil, tão tolo, e só perceber, hoje, agora, nesse momento, que, para quem realmente ama essa arte, é impossível desentrelaçar o nó que as ata ao mundo real, e é tudo uma coisa só, não há limites, não há barreiras, e esse texto esquisito é o reflexo disso, e também é um humilde presente, mesmo que, eu receio, esteja embrulhado demais.

( Entenda que o meu presente nada se compara ao que recebi. Entenda que o mundo real me chegou na bandeja, enquanto eu dormia na cama o sono da ingenuidade, e o mundo real é aquele que eu sinto com os dedos trêmulos de tanto desejo, de apalpá-lo inteiro, de arrancar com os dentes um pedaço para mim, de lamber suas curvas cobertas de neve, de deixar dissolver na língua a cereja rosada que há sobre seu cume, de sorver o líquido doce dos frutos de suas árvores, tudo isso ainda sonolento mas meus dedos trêmulos sobre a sua maciez já anunciam a partida da ingenuidade e da sonolência, vão se esvaindo aos poucos enquanto lentamente eu acordo, lentamente mas rígido, duro, mergulhando na vida do mundo real que pulsa entre suas pernas )

Tuesday, September 29, 2009

Carta aberta para alguns

Repostado por motivos misteriosos...


Caros marginais,

Espero que vocês, daí, sentados nas sarjetas, físicas ou emocionais, à margem da sociedade, sejam alcançados por essas pequenas palavras de conforto. Como a minha sarjeta, por sorte e azar do destino, não é palpável a não ser através da frágil textura da minha alma já tão rasgadas pelas farpas de cimento e asfalto mal construídos, não posso falar-lhes sobre a outra.

Falo para vocês, que só têm o seu contento com migalhas providas de inocentes, que sabem quão cruel (ainda que necessário) pode ser um abraço, de mulheres de outros, de odores de álcool, cigarro e pestilência de bares sujos. Vocês, a quem não foi dado alternativa senão mergulhar dentro de seus próprios corpos e mentes, que só contentam e aliviam o corpo com as próprias mãos, e invejam os amigos e conhecidos que desfilam com suas mulheres e ainda cobram diversão da sua parte e reclamam do seu desânimo pois ele está infestando o ar.

Vocês, que são convidados para essas reuniões e festas, esses recantos de diversão, só possíveis àqueles que não fazem parte da primeira sarjeta, e, quando não conseguem apreender para si a essência de tais recantos, é dito que vocês são uns chatos, e novamente são jogados para dentro de si mesmos, de seus próprios corpos e mentes, flutuando no oceano da própria alma, revirando pensamentos antigos, contemplando com olhos tristes Ela, singrando os mares da triste verdade: se eu a tivesse para mim, não precisaria estar aqui.

A todos vocês, que não se contentam com esse pouco, cuja suposta diversão deveria bastar para fazer da noite uma noite memorável. A vocês, cuja idéia de “loucura“ ou “diferença” não significa afogar a consciência no álcool para tentar escapar ou mergulhar na vida, seja ela o que for: tormento ou diversão.

A vocês, cuja loucura é a única saída possível dos problemas morais pelos quais constantemente são esmagados. Sabem que não há culpa. Não existe culpa. Não foi lhes dado uma opção e conscientemente escolheram: prefiro andar à sarjeta dos mal-amados. A vocês, que cultuam o obsceno, pois não houve alternativa. O obsceno ou a dor. De certo modo, é fácil. No entanto, sabem: dói cultuar o obsceno, pois ainda possuímos aqueles que nos são caros, e temos competência para saber que, tão logo expostos a eles nossos desejos, tão rápido ficaríamos sós. Pois, mesmos os nossos mais queridos amigos estão inseridos na mais pura moralidade. Machuque essa moralidade e machucamos eles próprios.

Sobretudo a todos vocês, que já estão fartos de saber que nada irá mudar, que o amanhã não trará novidades, que o ontem não era melhor, que a nostalgia é uma peça que a mente nos prega à fim de tentar dar cor ao presente, a todos vocês que possuem conhecimento da única verdade: minha vida é contemplar esse abismo aqui de dentro. É a vida de um navegador que está eternamente à proa dum navio estraçalhado nos oceanos da própria alma, um abismo imenso cujos gritos e ecos nos puxam da realidade.

E, por fim, como todos sabemos, a vocês que não possuem lugar para colocar a gigantesca quantidade de amor que lhes inunda o mundo e os empurra para esse grande abismo. E que entre amor e vício são só alguns centímetros de diferença. E amor (e vício) é por definição o lugar ao qual tendemos sempre a retornar. A vocês, eu repasso um conselho que me foi muito útil: “é preciso ter asas quando se ama o abismo.”