Tuesday, February 2, 2010

Como narrar o que se sente quando capturado por certos olhares.

Para ____

São os olhos. Contam que são uma janela. Que se são feios, também é a alma. Se luminosos, também o espírito irradia luz. Uma pena, séculos de literatura já afastaram essa crença e o transformaram num clichê literário – um assassino pode muito bem ter olhos tenros como os de uma criança.

Mesmo assim eu digo, são os olhos.

É o modo mais ou menos assim, devido a minha estatura um pouco mais alta, que é sempre de cima que eu a vejo, e que ela tem que olhar um pouco para cima para me olhar também neles. A cabeça milimétricamente inclinada para o lado, os grandes olhos castanho-musgo (um tronco de árvore coberto de folhas verdes iluminado pela luz do sol que adentra por entre as copas) me fitando de baixo com uma atenção quase divina, com um quê de criatura indefesa, com uma meiguice mesclada de mulher experiente sou pequena e fofa, e sei do que isso é capaz. Percebo agora que quando penso em seu corpo, logo penso em seus olhos, como se o corpo viesse de presente como prova de amor que aqueles olhos tem por mim. Como se os olhos banhassem o corpo de luz, e quando se fecham, é como amar na escuridão absoluta. E são os olhos, pois, veja, é até engraçado se você tiver senso de humor: quando tento me lembrar das confusões de gritaria e do silêncio aterrador que vem em seguida, não consigo encontrar em minha memória aqueles olhos expressivos. No mundo estranho das lembranças, não é ela quem grita: é uma mulher sem olhos.

Você sabe do que estou falando. Você provavelmente já sentiu isso alguma vez. Desde o princípio, quando ainda estamos nos esgueirando devagar, com cautela, sem movimentos bruscos nem atos impensados, nos territórios da conquista – pois, sabemos, nosso tipo de gente já sofreu muito, ou por lentidão demasiada, ou declarações apressadas – desde esse princípio, o que me norteia a memória são os olhos. Como nos esbaldamos naquela íris, essa relva extensa e idílica, onde tudo que captamos é a mistura do marrom com o verde, e vislumbramos cenas de filmes nos quais há aquela árvore perdida no meio de tantas, só distinta pelo rudimentar desenho de um coração atravessado por uma flecha, eternizando numa promessa de amor inocente dois nomes talhados na madeira, assim meio tortos, talvez à duas mãos, por um canivente substituindo o lápis, Para sempre, um quadro emoldurado por verdes folhagens sacudindo e sibiliando ao vento. É isso a íris. São os olhos. E só não é um idílio completo pois há um rosto e uma criatura que olha pra você, meio de lado, de baixo, em eterno questionamento, aparente e dissimuladamente confusa, entretanto mais certa do que você pensa. Então não mais é uma floresta, não mais árvores, o sangue já começou a correr dentro de você por causa do coração perfurado por uma flecha e tudo que há é aquele corpo com olhos tão grandes e profundos, aquele corpo que você sabe, você sabe.

Monday, January 18, 2010

Fluxo de consciência durante um momento constrangedor

Primeiro experimento de fluxo de consciência.
(frustrado?)

Tempo de duração total da cena: 1 segundo.


um relâmpago e uma manada de pássaros varando meu teatrinho erótico jogando contra a minha consciência a minha saudade da solidão passou por mim feito um trovão que nos acorda encolhidos contra nós mesmos nas horas mortas e me rasgou a felicidade de não estar mais só como o pivete rasga a garganta de alguém compadecido de sua miséria após entregar-lhe alguns trocados e eu num fluxo eu imaginei ela lendo todas essas linhas depois de ter à tanto custo se libertado da casca que a impedia de amar novamente e se libertado por mim e só po mim e me oferecer todo o seu amor e o seu corpo e o prazer que ela sabe proporcionar tão bem e tudo isso foi parar sabe deus como na boca do meu estômago e assim eu me envenenei a mim mesmo com minha ingratidão pois o trovão me abriu a boca e me arrancou o grito de prazer que eu sentia sozinho sozinho enquanto gozava também sozinho da felicidade de estar sozinho novamente depois de ter estado tanto tempo sozinho e a solidão ter me proporcionado tantas mortes e assim na medida em que eu tomava consciência do meu autoinvenenamento eu gostava e me martirizava se sou realmente esse filhodaputa ingrato ou se toda esse martírio solitário e induzido não é também fruto de cem anos de solidão isso tudo eu via na minha faca lambuzada do sangue jorrando da garganta dela após oferecer pra esse pivete aqui alguns trocados de amor que ela aprendeu a cultivar depois de ter passado ela também por pessoas que selavam uma após a outra as comportas dos canais do tanto de amor que ela urgia em torrenciar logo ela meu deus logo ela que tanto amor tem pra me dar e não pensem vocês que o amor dela é tanto que me sufoca desse clichê metafórico eu não farei uso ah logo ela meu deus tudo isso é muito prum pivete sentado na privada com as calças arriadas o pau na mão e a boca pateticamente aberta em O que abriu assustada por um trovão parecendo ao pivete o grito de lamento de deus e do coro de todas as pessoas do mundo que subitamente o descobriram em flagrante e a vergonha toma conta do banheiro pois ela sabe ah meu deus ela sabe ela sabe todos sabem que eu a traí comigo mesmo e o céu ficou ficou quieto de novo o trovão passou

Thursday, December 17, 2009

meta-socrático (problemas de se escrever um livro na cama enquanto todos trabalham)

A luz já está fraca, e alguém me diz: é hora de levantar da cama, seu preguiçoso imprestável.
E é verdade mesmo. Mal consigo ler as linhas desse livro que venho tentado escrever no corpo dela. A luz já está fraca, Deus me diz, mais um ciclo termina e outro começa, porém agora possui uma mulher ao teu lado. Fazei dela bom uso. E assim será.
Depois de longuíssimos anos dormindo somente consigo mesmo, o seu corpo acaba se tornando irritante, de certo modo, para si mesmo.
Alguns anos convivendo somente com o corpo industrializado da celulose e da tinta deixa certos vícios, hábitos, talvez até chagas irreversíveis. E, se estou lendo um livro, também estou, em diversos níveis, escrevendo um, dentro da minha mente, no meu braço, minhas pernas, no meu pau, nos conhecidos, na rua, na mesa, na comida - no mundo, enfim. Se nos são negados os prazeres da carne, nos são oferecidos outros prazeres, menos tangíveis, mais fugidios, de difícil apreensão completa, e muito pouco duradouros. E com a luz fraca, então, só resta esperar a escuridão, ou nela mergulhar de cabeça.
Então, então, surpresa!, eis que surge esse presente, esse golem alquímico, esse corpo cheio de coisas dentro, que por milagre está disponível, sempre por milagre, e meu Deus, o tato é um milagre, e só os mais imbecís que já estão anestesiados de tanto tocar não conseguem perceber a obra divina que é o tato. E quando eu digo divino não digo simplesmente uma hipérbole de algo demasiado excitante, eu digo divino em seu sentido literal, de Deus mesmo, Celeste, pois Deus, do modo que eu vejo, é a Coisa mais humana que existe, corrompam-No quem o quiser.
E com a luz fraca esse livro enorme que venho escrevendo nela já também se mostra fugidio. É um livro incrível, eu vos garanto. O melhor de todos, pena necessitar tanto de luz para ser visto, mas o que não prescinde de luz, não é? E ao redor da cama já se reune em bando o coro das Pessoas Úteis, que com seus gritos tentam nos fazer levantar, que com suas reprimendas tentam apagar minha obra prima, que com suas atividades úteis tentam nos diminuir. Mas são uns idiotas completos. Ainda não percebem que não mais estão na Grécia. Ainda não se tocaram de sua condição de coro. Que o coro será somente isso mesmo - um bando de comentaristas que dizem o que está acontecendo e para onde se deve ir. São ruínas ambulantes, tagarelantes, não percebem a vaziês em que estão imersos, e, o pior, não percebem esses idiotas que ESTÃO TAMPANDO A LUZ DA JANELA.

Wednesday, November 25, 2009

Ai, esses espíritos livres...

"Um beijo, um cheiro, um abraço, um abismo, um salto e lá estou eu me jogando novamente pra você."

Dito isso, eu sou deslocado pr’um ponto de vista privilegiado. Sou agora o observador que vê de baixo, com a diferença que não tenho mais incensos nem velas para acender em altar algum. Estou agora em meio à extensões infinitas de cordilheiras e vales, e, trazidos pelo vento, sinto aromas que pulsam por essas galerias naturais e me inflam o tronco e eu árvore, enraizado e tendo meus pés banhados pela água que corre abaixo da terra estremeço de prazer, me saciam todos os apetites o sopro de vida a correr pelas veias invisíveis dessas cordilheiras… e aqui de baixo a natureza é toda fantástica, quase onírica, o verde das copas e de meus cabelos, o marrom de minhas pernas e dessas montanhas, o azul do céu e dos rios e do meu sangue; esse quadro bucólico, eu enuviado devaneio, só pode ter sido pincelado por sirenas, fadas ou quaisquer outros espíritos livres que correm por aí como se parte da estrutura viva de toda a natureza (não posso deixar de imaginar, seriam mendigos fosse o quadro um pouco mais urbano), e que pintores exímios são essas criaturas! os pêlos do meu corpo ainda estão eriçados pelas pinceladas. Ai, esses espíritos livres, como não se apaixonar por eles? Tão espontâneos, quase líricos em seu silêncio, sua poesia não se dá senão pelo rastro de aquarela que se mistura com seu sorriso, riem, riem de tudo, gargalham, não estão presos a nada nem a ninguém, e se eu agora não fosse árvore, fosse eu um observador de passagem, como tantos outros que descobrem essas criaturas, tenho certeza que meu sangue ferveria, que seria difícil refrear os impulsos que me subiriam a espinha, impulsos de aprisionar para si esses espíritos, de trancá-los no porão, de se lambuzar, espalhar as tintas do corpo sem critério nem significado… sim, é fácil compreender o por quê da paixão que se sente por essas criaturas, elas pertencem ao mundo e é só tomando para si plenitude do mundo que elas são felizes; como não se encantar com a leveza e serenidade que carregam no peito, pois o mundo, quando se consegue todo para si, ele não pesa nada, é leve, é uma pluma, te faz flutuar, e nada mais fácil do que desenvolver a ilusão de que apanhando essas criaturas, estaria-se apanhando também um punhado do mundo, mas é uma pena, pois eles anseiam pelo paraíso, mas há muito perderam a inocência… E volto a mim, em minha nova condição de árvore, estou congelado com o rosto voltado para cima, e percebo o salto, o seu salto, deslocando a densa barreira do ar, deslocando esses aromas, reconfigurando seus caminhos e fazendo-os desaguar essa torrente em mim, e atrás vem você como se presa a cauda de um cometa de fragâncias; que confusão de imagens essa que eu criei, uma galeria de quadros e espelhos, já estou há muito perdido nela, mas que seja, que seja, se fui pintado assim e se foi me dada essa única direção a que olhar, vou aproveitar, e olha meus galhos abertos num abraço gigante, esperando sua queda inevitável nas folhas de minha copa, pode cair, e não se preocupe, não vou tomar sua liberdade, não vou te prender entre esses galhos – não esqueça, ambos temos o mundo no peito, e caindo em mim, é na verdade ele que te abraçará.

Tuesday, November 24, 2009

Poema antigo...

...e um tanto bobinho, mas que se vá, que se vá, porque hoje só quero um monte de estrofes empilhadas mesmo.

***

POEMA À DERIVA

Sob o panteão de estrelas, a milhas da costa,
Vaga o barco solitário e seu capitão.
Se diz capitão sabe Deus porque.
Já não possui tripulação,
A comida acabou, a água secou, a noite gelou.

Emaranhado de trevas ele acorda no seio da noite
Embriagado de maresia e frio e mar
À proa ele vai, forçando seus grilhões mais e mais
Esmagado pelos dois abismos colossais.
E com um grande suspiro se deixa levar,
Prostrado na proa, fitando o céu, enclausurado
(Com um sorriso na cara)
Encolhido num caloroso abraço
De trevas e noite e mar e estrelas.

Assim vai indo o capitão do barquinho sem rumo
E tudo que vê é a noite, imóvel, e suas constelações

Da falta de comida e de água ele adormece,
Pensa que é o último sono
E sorve com gosto o resto da noite,
Do sereno, do ar gelado.
De tanto ar embriagado, enfim adormece.

Desperta sonolento e dolorido fitando o céu
E – oh! As estrelas se foram.
A vida se foi. Acabou.
É essa a resposta final. Escuridão, trevas, acima, abaixo. Só.
Eis a morte – vida na escuridão.

Que me resta, pensa o capitão, se achando morto.
Que me falta agora além de comida, água,
Vinho e o calor d’uma mulher?
Até minhas estrelas se foram!
Elas, que tanto me abraçaram!
Nada mais me falta agora, já que toda a falta já falta.
Deito-me, então; e, já que nada me oferece o mundo
Pois com o nada hei de me envenenar!

E deitou, respirou o ar, dormiu
E o vento norte por ele passou
Como passam certos amores
Pelo coração que se enclausurou.

Se ao menos soubesse o capitão…
Se seu sono não fosse o último…
Não houvesse ele tanto de se envenenar…
Levantar-se-ia, e, ao olhar para o lado, veria:
Deixou-se à deriva, e nesse acaso se salvou,
A brisa o levou ao cais.
Mas, profanado pelas luzes da cidade,
Também o céu de estrelas se apagou.

Wednesday, November 18, 2009

O que se esconde nos cumes? (Éden suspenso)

E foi como se tomado de assalto que me percebi alguns degraus acima do nível do mar. Foi só quando percebi que a respiração estava difícil, que ventava frio, que meus ouvidos tinham entupido. Foi a vertigem ao olhar pra baixo e perceber as ondas batendo com violência nas pedras que antes pareciam tão grandes. Foi respirando fundo e segurando o ar com força para não perder o equilíbrio. Um movimento em falso e a vertigem tomaria conta de mim e aí já viu. Se estou tão alto, o equilibrio é estritamente necessário. Todas as forças da natureza e das leis da física estão jogando contra mim. Tentam me sufocar, tentam explodir meus sentidos, tentam me causar frio, tentam me empurrar daqui de cima, e o pior... tão alto eu cheguei, tão próximo do céu, tentam me queimar de sol. Mas eu mesmo tonto, mesmo enuviado, mesmo cercado dos mais altos perigos que o mundo oferece, ah, mesmo assim, eu rio, eu rio na cara desse abismo gigantesco que eu sozinho galguei, e rio na cara da vertigem, e rio na cara do oceano e do vento, e empurro de volta tudo que ele tenta empurrar contra mim. Se venta na minha cara, eu assopro de volta, pois daqui de cima o meu sopro equivale ao sopro de Deus, e meu riso é tão estrondoso quanto um trovão. Já arrisco até algumas brincadeiras - vou ficar apoiado em uma perna só, e ainda dar alguns pulinhos, ha ha ha, porque se você para pra pensar direito, nem estou tão alto assim, ainda há muito pra subir, temos muito chão pela frente. E que seja mais e mais vertiginoso, eu quero saltar os relâmpagos, quero pegar jacarézinho no dilúvio, já sinto que posso apagar o sol com meu cuspe; subamos, pois, a vertigem nos aguarda.

Tuesday, November 3, 2009

Pela criação e destruição de todos os limites

Ou: o Eterno Retorno do corpo



Todos sabem o que é mergulhar,
Afundar, deixar-se afogar,
Amputar os braços, as pernas,
Para não mais poder nadar,
E lá ficar, à deriva, entre as curvas
Do relevo sinuoso
De suas quase etéreas geografias.

Mas quem há de saber da frustração,
Do desespero, do êxtase de excitação
Que, só por explodir, já impõe o limite da explosão;
Quem há de saber que além do prazer
De se ver submerso,
De perder as referências entre os corpos
De misturar um milhão de espelhos,
Que, além dessas cercanias, nada mais há;
É atingir o topo do poço
É bater de cabeça no firmamento;
É dar de cara com Deus;
É vislumbrar o infinito e dele (quase!) se cansar.

Quanta frustração!
Mesmo sabendo que o gozo eterno significa o seu próprio fim,
Como dói não saber como afundar-te mais e mais em mim.